Monday, June 29, 2015

Dias que passam      1 Ago 2013


Passam tão longos. Chega a manhã e nunca mais chega o momento de fechar os olhos e descansar de novo.
Manhã linda de Sol, atmosfera linda dourada. Mas demora muito a chegar ao fim, a cair a noite. Finalmente descansar.

Os dias são de tristeza. Uma dôr tão entranhada me traz à memória tudo o que é dôr, silêncio, vazio. Longe, que longe que tudo está! Vazio, já não restam os restos de mim.

Onde estão aqueles que me acarinhavam com um bom abraço, um olhar profundo e com significado? Falo sózinha, penso sózinha, porque eles NÃO ESTARÃO NUNCA MAIS!

Que saudades me corroem a alma!

3 de Setembro de 2013
A mágoa que me consome é traiçoeira e má. Faz-se minha "amiga", acompanha-me em permanência, fala comigo. Chaga que não me liberta!
Os remédios que tomo, dizem, podem provocar alucinações; que venham elas tomar o lugar desta maldita mágoa.
Faz precisamente um ano, gastávamos o tempo esperando pela hora da cintigrafia, no H. da Luz. Tomámos uns sumos,  um bolo, uma conversa.
Meu Pai, aproveitei para te fazer umas confidências. Confesso que pensei "Não deixes nada por dizer é agora ou já não há tempo." Por isso, conversámos. Preocupados, sem dúvida. Eu tentando parecer  racional, convencendo-o de que se tivesse metastases as dôres eram contínuas.
Completou-se a tarde, que foi bem aproveitada para conversar e sentirmos e reforçarmos a presença e incondicional amizade de cada um.

Os resultados chegariam dramáticos no dia 11, pelo telefone.
Foi o início do fim para ele e o início da minha mágoa para SEMPRE! 

Sonho de Magia


Via-te Mãe. Calmamente acariciava-te o rosto de pele macia, como tinhas. Queria que voltasses todas as noites e que trouxesses sempre, contigo a mesma magia de me acalmar. Não queria que acabasse este sonho de magia.

Mas, não voltou mais.


Vieste despedir-te de mim? Porquê? 

Era a última noite

Não acreditei na última noite
Era a pessoa mais alegre que jamais conheci. Herdara, segundo contavam, essa alegria do saudoso Pai. Alegrava a Mãe e a irmã e os amigos. Depois o marido e filhas. Que mais se podia querer de uma boa e carinhosa Mãe, por vezes incompreendida pelos caminhos da minha adolescência? Muito amiga, mas muito senhora de mim própria, quebrava tantas vezes essa alegria natural de tão boa Mãe.
Passou a adolescência perturbadora, e o Amor e Compreensão cresceram até mais não.
O diagnóstico feito havia anos. A doença avançando impiedosa, levou-me lentamente a Mãe que eu nunca deixei, que nunca acreditei pudesse desaparecer, em chegando o seu dia.
Com paciência e calma, passeámos no corredor para um lado e para o outro, tentando manter uma conversa que de conexa pouco tinha. Frases curtas. Cuidado não tropeces - para lá. Devagar não te canses - para cá. Cuidado não tropeces, repetindo. Vamos ver uns quadros. Uma fotografia. De quem? Resposta correcta, quase sem fôlego. E aquela quem é? Lembras-te? Resposta correcta. Era linda, não era? Muito, responde quase sem fôlego.
Os olhos estranhos, que impressão! Mas nunca poderia admitir o que isso significava. Era a última noite. Na seguinte, quando cheguei perto dela, morrera. Não, Ela não podia fazer-me isso - Morrer! E agora compreender porquê?!
Toda a minha vida tinha sido orientada e acarinhada por ela, a sua dignidade, mesmo doente. Perdê-la? Nunca! 

Mas sim. Roubaram-me a Mãe!

Não! Sem Ela NÃO!

Silêncio

A brisa secava-me os olhos e o Sol entorpecia-me o andar. Quanto de mim ficara sob os torrões rolantes e sonoros, e mais e mais e mais. Por cima coroas de flores; mil-flores a adornar.

A brisa levou-lhe a alma naquela fotografia de olhar patusco. Foi parar a parte incerta, desapareceu.
A minha Mãe morrera.

Ali estava eu, perdida mas decidida a não a deixar sózinha. Grande silêncio à minha volta. Tudo se resumia a gestos pois os sons tinham sido também levados. Que falta de forças, mas dali não saía não fosse alguém puxar-me e arrastar-me ordenando que "Já basta!". Nem reagi, deixei-me ir.

Na véspera cheguei, depois de um telefonema aflito, e o enfermeiro abriu a porta da sala com ar pesaroso: "Não pudemos fazer nada. Já não respirava"
Na antevéspera passeava no corredor falando de mansinho por se sentir muito cansada. Despedi-me dando-lhe "muitos beijinhos" a seu pedido. Posso dar? "Sim, muitos."

Agora ali estava imóvel, de rosto bonito, como sempre. Acariciei-o, aveludado. Encostei-me a ele, e nada reagia. Triste, incrédula. Mãe porque me deixaste? A longa doença transformou-a, lentamente numa pessoa diferente, mas era a Mãe presente. A minha segurança espiritual.

Agora abandonára-a eu num local de abandonados, silenciosos entes queridos de alguém.

O último beijo

Chegou o momento! Será o último. Como é possível?
Ninguém reage. Apenas eu aceno com a cabeça. Aproximo-me e, com um enorme carinho, lhe dou o último beijo na testa. Um momento de abstracção, como se só eu e ele existíssemos. Sinto-lhe a pele fria. Porque não posso eu ressuscitá-la, aquecê-la para que retorne a mim?

Dois passos atrás, com a maior das dores alguma vez sentida. Aqueles passos significavam a permissão da clausura. Nunca mais o veria. Nunca mais. Era a última imagem.
As forças esvaíam-se. Fechei-me também como que num casulo isolado do mundo externo. Deixei de ver o que quer que fosse, de ouvir o que quer que fosse. Eu deixei a Terra e voei, como que numa tentativa de acompanhar o seu espírito a elevar-se e a sair da terra.

Mas não, não o acompanhei. Ele, sim acredito que tenha aceite a minha companhia, mas não o vi.
Não o vi, nunca mais.

Não há consôlo possível. Nunca mais!


The last kiss

The time has come! It will be the last. How is it possible?
Nobody reacts. Only I nod. I approach and with a great affection I give him the last kiss on the forehead. A moment of abstraction, as if only he and I existed. I feel her skin cold. Why can not I raise him up, warm him to return to me?

Two steps behind, with the greatest pain ever felt. Those steps meant permission for the cloister. I would never see him again. Never. It was the last image.
The forces are gone. I closed myself off as if in a cocoon isolated from the external world. I failed to see anything, to listen to anything. I left Earth and flew, as if in an attempt to accompany your spirit to rise and to leave the earth.

But no, I did not. He, yes, I believe he accepted my company, but I did not see him.
I did not see him, never

There is no possible conspiracy. Anymore!