Monday, June 29, 2015

Era a última noite

Não acreditei na última noite
Era a pessoa mais alegre que jamais conheci. Herdara, segundo contavam, essa alegria do saudoso Pai. Alegrava a Mãe e a irmã e os amigos. Depois o marido e filhas. Que mais se podia querer de uma boa e carinhosa Mãe, por vezes incompreendida pelos caminhos da minha adolescência? Muito amiga, mas muito senhora de mim própria, quebrava tantas vezes essa alegria natural de tão boa Mãe.
Passou a adolescência perturbadora, e o Amor e Compreensão cresceram até mais não.
O diagnóstico feito havia anos. A doença avançando impiedosa, levou-me lentamente a Mãe que eu nunca deixei, que nunca acreditei pudesse desaparecer, em chegando o seu dia.
Com paciência e calma, passeámos no corredor para um lado e para o outro, tentando manter uma conversa que de conexa pouco tinha. Frases curtas. Cuidado não tropeces - para lá. Devagar não te canses - para cá. Cuidado não tropeces, repetindo. Vamos ver uns quadros. Uma fotografia. De quem? Resposta correcta, quase sem fôlego. E aquela quem é? Lembras-te? Resposta correcta. Era linda, não era? Muito, responde quase sem fôlego.
Os olhos estranhos, que impressão! Mas nunca poderia admitir o que isso significava. Era a última noite. Na seguinte, quando cheguei perto dela, morrera. Não, Ela não podia fazer-me isso - Morrer! E agora compreender porquê?!
Toda a minha vida tinha sido orientada e acarinhada por ela, a sua dignidade, mesmo doente. Perdê-la? Nunca! 

Mas sim. Roubaram-me a Mãe!

Não! Sem Ela NÃO!

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