Monday, October 12, 2015

A Thousand Years

Saudades - de Florbela

Saudades

Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?... 
Se o sonho foi tão alto e forte 
Que pensara vê-lo até à morte 
Deslumbrar-me de luz o coração! 

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão! 
Que tudo isso, Amor, nos não importe. 
Se ele deixou beleza que conforte 
Deve-nos ser sagrado como o pão. 

Quantas vezes, meu Pai, já te esqueci, 
Para mais doidamente me lembrar 
Mais decididamente me lembrar de ti! 

E quem dera que fosse sempre assim: 
Quanto menos quisesse recordar 
Mais saudade andasse presa a mim! 

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade" 

Lágrimas ocultas

As lágrimas ocultas que só eu sinto inundarem-me a alma até quase sucumbir, as lágrimas ocultas que me toldam o caminho, que não me deixam ver o rumo a seguir.
Esse caminho estreito e suspenso, com abismos imensos aos quais não sei reagir e que parece querer, a qualquer momento ruir.
Sucumbir às minhas lágrimas, acabar o sofrimento, quem sabe encontrarei,
lá no fundo, os meus alicerces que hoje são a causa das lágrimas ocultas que me corroem a alma.


Lagrimas ocultas - Florbela Espanca
...
E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas-de-santa-maria  que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!