No cemitério
13/10/2014
Chuva intensa, os anjos não queriam nada comigo. Fiquei molhada de alto a baixo, mesmo com gabardina e chapéu de chuva.
Ia receosa. Nunca sei como vou reagir ao chegar àquele macabro local. Procurei a campa do Pai e, como não a encontrasse, voltei atrás e perguntei à entrada pelo número, para que lado seria. Finalmente encontrei.
- Penso que seja esta, dizia o Sr que me acompanhou, e leu: Jorge Joaquim Mourão, e ficou por aqui pois eu disse que sim, era esta.
Fiquei ali especada, pensando:
- Isto não me diz nada! Aqui não está nada que me interesse! Ele não está aqui! Durante uns minutos duvidei da minha estúpida ideia de lá ir, fazer o quê e para quê?
De repente veio-me um soluço, quando pensei que, na realidade é ali que eles estão inertes e já transfigurados. Afinal onde estão eles? Dentro de mim? Treta! Dentro de mim estão as recordações, as imagens, as alegrias e tristezas vividas em conjunto. Mas eles já não estão em lado nenhum. Só restos. Os soluços multiplicaram-se. Ajoelhei-me na pedra de contorno da campa e aí dobrei-me sobre mim própria, perante quem está sem estar. Posso lá ir vezes sem conta que não os encontro.
Fui à Mãe. Está tudo igual. Debaixo daquela terra só restam os restos dela. Na minha memória restam as saudades de rir com ela, de brincar, de dormir no seu colo até mesmo de tratar dela quando a doença a incapacitou. A chuva e o vento levavam-me as lágrimas e os soluços eram abafados pelo som das árvores assoladas.
Fiquei ensopada. Voltei para trás. De caminho apanhei uns pézinhos de gramíneas engraçadas e levei-os para o Pai.
De novo perto da campa, agora mais perturbada que antes, pelas saudades que não me largam, depositei as gramíneas na jarra. Encostei-me ao banco de jardim e chorei o quanto me apeteceu debaixo do chapéu de chuva. A chuva e o vento pareciam entender que era hora de ir. Fortes como eu hei-de ser, fizeram com que me fosse embora, não sem antes olhar fixamente o nome completo, como que a despedir-me não sei de quê.
Voltei com mágua, mas se não tenho ido a mágoa seria maior. Senti a leveza de ter feito aquilo que queria: uma pequena homenagem no dia fatal.