Tuesday, December 22, 2015

Porquê tanta angústia e tristeza?
Invade-me um vazio

Friday, October 23, 2015

Will go on

Em 25 de Setembro de 2015,
Aconteceu
Frio, frio, mas muito frio
Gás, turbilhão, vozes
Inalação, turbidez
Inalação, luzes
Frio, muito frio
Entrego-me, mas antes pergunto:
Estás comigo?
Sei que sim,
Estás no meu coração
Acompanha-me
O meu coração continuará vivo e
Estarás para sempre dentro dele,
Comigo


Monday, October 12, 2015

A Thousand Years

Saudades - de Florbela

Saudades

Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?... 
Se o sonho foi tão alto e forte 
Que pensara vê-lo até à morte 
Deslumbrar-me de luz o coração! 

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão! 
Que tudo isso, Amor, nos não importe. 
Se ele deixou beleza que conforte 
Deve-nos ser sagrado como o pão. 

Quantas vezes, meu Pai, já te esqueci, 
Para mais doidamente me lembrar 
Mais decididamente me lembrar de ti! 

E quem dera que fosse sempre assim: 
Quanto menos quisesse recordar 
Mais saudade andasse presa a mim! 

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade" 

Lágrimas ocultas

As lágrimas ocultas que só eu sinto inundarem-me a alma até quase sucumbir, as lágrimas ocultas que me toldam o caminho, que não me deixam ver o rumo a seguir.
Esse caminho estreito e suspenso, com abismos imensos aos quais não sei reagir e que parece querer, a qualquer momento ruir.
Sucumbir às minhas lágrimas, acabar o sofrimento, quem sabe encontrarei,
lá no fundo, os meus alicerces que hoje são a causa das lágrimas ocultas que me corroem a alma.


Lagrimas ocultas - Florbela Espanca
...
E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas-de-santa-maria  que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Friday, October 2, 2015

O relógio sentiu comigo


Era dia 20 de Setembro, o meu relógio "ficou sem pilha, parou!". Não valia a pena, parou mesmo. Ficou na gaveta.
Dia 23 recomeçou a marcha. Ainda triste, mais do que o normal, estava mais calma. O dia 22 foi recordado com mágoa de saudade, lágrimas pela impotência evidente. Ele não está nem estará nunca mais. Ele não voltará a surpreender-nos com velas no bolo. Bons momentos recordados com tristeza mas, ao mesmo tempo, revivi as risadas e o belo momento que, já ele sabia, seria o último. Bem disposto, animado, contente pela atenção prestada à ocasião.

Tão vivido, pranteado em desespero mais um aniversário ausente. O relógio falou comigo, partilhou a minha profunda saudade e tristeza.

Thursday, September 24, 2015

The chaos! Yes, I will arise

I dream, dream, and dream
Still knowing dreaming is one reality in my life

So, I think, think and think
And so I know I had and still HAVE AMAZING THINGS IN MY LIFE
AMAZING, REALLY AMAZING FAMILY TO CARE OF, TO BE WITH, TO GIVE A LOT,
PEOPLE WHO ADORE ME,
AMAZING THINGS IN THE WORLD WICH I ADORE

WHAT ELSE WOULD I NEED?
I HAVE ALMOST EVERYTHING TO BE HAPPY
BUT THE "ALMOST" kills me. It is SUCH A MONSTER

WHICH ONLY WANTS TO DESTROY
JUST LIKE THAT: DESTROY ME

BUT FROM THE ASHES OF THIS CHAOS .... SHALL I ARISE (mitological text)


Wednesday, September 23, 2015

Podia ter 90

Nasceu há 90 anos o meu Pai.
Aqui fica uma homenagem de Alegria e emoção através da IX Sinfonia, que ele tanto apreciava. A grandiosidade do Hino e das imagens significam o meu orgulho por ter sido educada por ele e por ter podido viver e conviver o mais possível, por ter recebido e ter dado o mais que pude.

 Quero-o para sempre comigo!




Monday, August 17, 2015

Meditação
A música toca, orquestra, piano, von Karajan, fantástica.
Entro na orquestra, envolvo-me na melodia ensurdecedora.
Era Für Elise de Beethoven, que o meu Pai tocava no piano do meu Avô. .
Tantas vezes o ouvi em disco de vinil, enquanto o Pai andava, com ar preocupado, certamente com problemas importantes para resolver.

Estou tão envolvida na cena que o vejo nitidamente, a música toma-me o pensamento e toda a cena se completa como se estivesse dentro dela. Imagens bem nítidas acalmam-me o espírito. Não me atrevo a intervir, nem uma palavra para não quebrar o pensamento que o preocupava.
Lentamente fui saindo desta espécie de transe tranquilizadora, calmante mas que me deixa perplexa com as saudades com que fico.
Como é possível? Por que tem que ser assim?

Tuesday, August 4, 2015

Not alone




But miss someone


Listen

http://youtu.be/HoG2i_h420A

When the day is long and the night,
the night is yours alone,
When you're sure you've had enough of this life,
well hang on
Don't let yourself go,
'cause everybody cries and everybody hurts sometimes

Sometimes everything is wrong. Now it's time to sing along
When your day is night alone, (hold on, hold on)
If you feel like letting go, (hold on)
When you think you've had too much of this life,
well hang on

'Cause everybody hurts. Take comfort in your friends
Everybody hurts. Don't throw your hand. Oh, no.
Don't throw your hand
If you feel like you're alone, no, no, no, you are not alone

If you're on your own in this life,
the days and nights are long,
When you think you've had too much of this life to hang on

Well, everybody hurts sometimes,
Everybody cries. And everybody hurts sometimes
And everybody hurts sometimes. So, hold on, hold on
Hold on, hold on, hold on, hold on, hold on, hold on
Everybody hurts. You are not alone 
Fuente: musica.com
REM

Saturday, August 1, 2015

A dôr é grande
Meu Pai, como poderei suportar esta dôr tão grande de não te ver.
Vejo-te sim, apenas dentro de mim, fechando os olhos e sonhando ao som das tuas músicas preferidas. As lágrimas caem pois o meu coração chora ao ver-te esbatido e inatingível.
Vejo-te, como fazias sempre, eu pequena a observar, com ar carregado andando de um lado para o outro, a música enchendo o ambiente melodioso enquanto resolvias, mentalmente o teu assunto importante. "Deve ser grave" dizia para comigo, sem me atrever a emitir um som que fosse. A admiração e respeito que tinha assim mo ditavam.
Quando, meu Pai, passarei a viver de novo? Não suporto viver sem ti e sem a Mãe. O que vai ser de mim com esta dôr tão grande?
Meu Pai

Wednesday, July 29, 2015

No cemitério
13/10/2014
Chuva intensa, os anjos não queriam nada comigo. Fiquei molhada de alto a baixo, mesmo com gabardina e chapéu de chuva.

Ia receosa. Nunca sei como vou reagir ao chegar àquele macabro local. Procurei a campa do Pai e, como não a encontrasse, voltei atrás e perguntei à entrada pelo número, para que lado seria. Finalmente encontrei.
- Penso que seja esta, dizia o Sr que me acompanhou, e leu: Jorge Joaquim Mourão, e ficou por aqui pois eu disse que sim, era esta.
Fiquei ali especada, pensando:
- Isto não me diz nada! Aqui não está nada que me interesse! Ele não está aqui! Durante uns minutos duvidei da minha estúpida ideia de lá ir, fazer o quê e para quê?
De repente veio-me um soluço, quando pensei que, na realidade é ali que eles estão inertes e já transfigurados. Afinal onde estão eles? Dentro de mim? Treta! Dentro de mim estão as recordações, as imagens, as alegrias e tristezas vividas em conjunto. Mas eles já não estão em lado nenhum. Só restos. Os soluços multiplicaram-se. Ajoelhei-me na pedra de contorno da campa e aí dobrei-me sobre mim própria, perante quem está sem estar. Posso lá ir vezes sem conta que não os encontro.

Fui à Mãe. Está tudo igual. Debaixo daquela terra só restam os restos dela. Na minha memória restam as saudades de rir com ela, de brincar, de dormir no seu colo até mesmo de tratar dela quando a doença a incapacitou. A chuva e o vento levavam-me as lágrimas e os soluços eram abafados pelo som das árvores assoladas.
Fiquei ensopada. Voltei para trás. De caminho apanhei uns pézinhos de gramíneas engraçadas e levei-os para o Pai.

De novo perto da campa, agora mais perturbada que antes, pelas saudades que não me largam, depositei as gramíneas na jarra. Encostei-me ao banco de jardim e chorei o quanto me apeteceu debaixo do chapéu de chuva. A chuva e o vento pareciam entender que era hora de ir. Fortes como eu hei-de ser, fizeram com que me fosse embora, não sem antes olhar fixamente o nome completo, como que a despedir-me não sei de quê.

Voltei com mágua, mas se não tenho ido a mágoa seria maior. Senti a leveza de ter feito aquilo que queria: uma pequena homenagem no dia fatal.

Wednesday, July 22, 2015

Fui contigo

Melhor
Estarei melhor mas ... Que grande mágua! Não consigo aceitar que aquele que me acompanhava alegre, carregado de "surpresas", ansioso por poder partilhá-las, por poder conversar e dizer umas larachas, no meio da sua enorme tristeza de ter perdido quem ele mais queria, esteja longe para sempre. Esteja mesmo já sob outra forma e já não seja nada de nada daquilo que foi.
A sua grandiosidade permanece apenas se nós quisermos, pois permanece na nossa memória.
Fui contigo, parte de mim foi contigo. Não sou eu que aqui estou. Sou uma que sobrou de um harmonioso grupo desfeito.
Triste, angustiada, saudosa, não sou eu 

Tuesday, July 21, 2015

Um Grito de Esperança

Um grito de esperança
Este meu amigo não me ouve há muito. Continuo frágil, demasiado vulnerável.
Não sei como me sinto. Não sei o que sinto e por que razão. Sou grande mas insignificante e deixo-me esmagar por essa pequenês.
Que algo me proteja pois eu não me sinto capaz.
Hei-de dar graças pelo que tive em vez de chorar o que não tenho. Este choro permanente da minha alma, leva-me com ele.
Eu rio, eu finjo, eu sou aberta e clara pois só quem é cego não vê que tenho a alma a desfazer-se. O património rico e invulgar, transporto-o comigo mas não me dá força, pelo contrário.
Toda a minha riqueza, que me ajude a ter forças pois esvaem-se a todo o momento.

Friday, July 17, 2015

Dentro de mim

Qualquer coisa
... dentro de mim chora chora chora, sem parar. Não sei o que é. Só sei que é dentro de mim. Meus Pais por que  me abandonastes? Tanto que preciso dos dois ... A tristeza invade-me .... Ai tristeza, falai comigo! Agarrai a minha alma e levai-a junto deles que eu assim não vivo, só sonho e choro choro choro!

Monday, July 13, 2015

Porque sim

Porque sim

Um simples telefonema falando com a Mãe desperta em mim uma saudade imensa, as lágrimas saltam teimosas, e uma vontade imensa, de que o tempo volte para trás e também eu possa ter uma Mãe com quem falar nem que fosse por 2 minutos, não mais.
Porquê?
Por que razão continuo sonhando com impossíveis, com a possibilidade de voltar para trás.

Sunday, July 12, 2015

Too much LOVE (Queen)

Too Much Love Will Kill You


I'm just the pieces of the person I used to be

Too many bitter tears are raining down on me

I'm far away from home

And I've been facing this alone for much too long


Oh, I feel like no-one ever told the truth to me

About growing up and what a struggle it would be

In my tangled state of mind

I've been looking back to find where I went wrong



Too much love will kill you

If you can't make up your mind

Torn between the lover and the love you leave behind

You're headed for disaster 'cos you never read the signs

Too much love will kill you every time


I'm just the shadow of the man I used to be

And it seems like there's no way out of this for me

I used to bring you sunshine

Now all I ever do is bring you down, oooh



How would it be if you were standing in my shoes

Can't you see that it's impossible to choose

No there's no making sense of it

Every way I go I'm bound to lose, oh yeah



Too much love will kill you

Just as sure as none at all

It'll drain the power that's in you

Make you plead and scream and crawl

And the pain will make you crazy
You're the victim of your crime
Too much love will kill you every time



Yeah too much love will kill you

It'll make your life a lie

Yes too much love will kill you

And you won't understand why

You'd give your life you'd sell your soul
But here it comes again
Too much love will kill you
In the end
In the end




Wednesday, July 8, 2015

A alma da princezinha

A alma da princesinha
Era uma princesa humilde, sensível e adoradora de animais. Desde pequena, os pais a observavam nas suas observações atentas no jardim. Na praia colhia conchinhas quase microscópicas e observava a sua perfeição.
Adorava os seus Pais, olhava-os com respeito e amor durante toda a vida.
A princesinha gostava de se embrenhar na floresta perseguindo borboletas e brincando com o esvoaçar errante destas belezas.
Tanto brincou com as borboletas que ganhou, ela também, asinhas delicadas e iridiscentes que lhe permitiam acompanhar as amiguinhas.
Um dia ao voltar a casa tinha os pais doentes. Os pais que tanto amava, cada vez mais doentes. As asas da princesinha foram perdendo a côr. Ela deixou de voar e brincar com as borboletas na floresta. Entristeceu. Os pais partiram e ela sentiu-se muito desamparada. As asas secaram e caíram. A princesinha já não se lembrava delas, nem das borboletas e a floresta tornou-se tenebrosa e triste.
Havia uma gatinha que antes corria com ela pela floresta, riam e brincavam com as borboletas. Era a mais doce, meiga e de pelo luzidio como nunca se vira. A gatinha adoeceu num triste dia para a princesinha. A gatinha foi embora encontrar-se com os pais da menina.
Cada vez mais triste sentia-se perdida sem aqueles bons amigos. Enfraqueceu tanto, que sofreu de várias maleitas. Sobrava-lhe um amigo com quem podia conversar. Mas, mais uma vez doente, quis conversar com o amigo. Para sua tristeza este tinha-se ausentado e, ali ficou ela, sózinha, frente à lareira tentando descobrir Porquê? Ela sabia. O amigo, cansado, incapaz de continuar a vê-la naquela tristeza, deixou-a.
A princesinha, triste compreendeu.
Deveria voltar a brincar com as borboletas, voltar a olhar para as conchas, voltar a ter asas mesmo que sem côr e sem brilho.
E assim cresceu a princesinha, tornando-se uma rainha muito querida do seu povo. Nos olhos notava-se o peso das agruras, mas agora que era rainha tinha-se tornado forte e muito respeitada. Só no recanto mais escuro dos seus aposentos a rainha deixava cair lágrimas de saudade. Tinha que ser forte, pois assim lho exigiam. No entanto, a sua alma derretera-se como uma vela ao Sol.

Monday, June 29, 2015

Dias que passam      1 Ago 2013


Passam tão longos. Chega a manhã e nunca mais chega o momento de fechar os olhos e descansar de novo.
Manhã linda de Sol, atmosfera linda dourada. Mas demora muito a chegar ao fim, a cair a noite. Finalmente descansar.

Os dias são de tristeza. Uma dôr tão entranhada me traz à memória tudo o que é dôr, silêncio, vazio. Longe, que longe que tudo está! Vazio, já não restam os restos de mim.

Onde estão aqueles que me acarinhavam com um bom abraço, um olhar profundo e com significado? Falo sózinha, penso sózinha, porque eles NÃO ESTARÃO NUNCA MAIS!

Que saudades me corroem a alma!

3 de Setembro de 2013
A mágoa que me consome é traiçoeira e má. Faz-se minha "amiga", acompanha-me em permanência, fala comigo. Chaga que não me liberta!
Os remédios que tomo, dizem, podem provocar alucinações; que venham elas tomar o lugar desta maldita mágoa.
Faz precisamente um ano, gastávamos o tempo esperando pela hora da cintigrafia, no H. da Luz. Tomámos uns sumos,  um bolo, uma conversa.
Meu Pai, aproveitei para te fazer umas confidências. Confesso que pensei "Não deixes nada por dizer é agora ou já não há tempo." Por isso, conversámos. Preocupados, sem dúvida. Eu tentando parecer  racional, convencendo-o de que se tivesse metastases as dôres eram contínuas.
Completou-se a tarde, que foi bem aproveitada para conversar e sentirmos e reforçarmos a presença e incondicional amizade de cada um.

Os resultados chegariam dramáticos no dia 11, pelo telefone.
Foi o início do fim para ele e o início da minha mágoa para SEMPRE! 

Sonho de Magia


Via-te Mãe. Calmamente acariciava-te o rosto de pele macia, como tinhas. Queria que voltasses todas as noites e que trouxesses sempre, contigo a mesma magia de me acalmar. Não queria que acabasse este sonho de magia.

Mas, não voltou mais.


Vieste despedir-te de mim? Porquê? 

Era a última noite

Não acreditei na última noite
Era a pessoa mais alegre que jamais conheci. Herdara, segundo contavam, essa alegria do saudoso Pai. Alegrava a Mãe e a irmã e os amigos. Depois o marido e filhas. Que mais se podia querer de uma boa e carinhosa Mãe, por vezes incompreendida pelos caminhos da minha adolescência? Muito amiga, mas muito senhora de mim própria, quebrava tantas vezes essa alegria natural de tão boa Mãe.
Passou a adolescência perturbadora, e o Amor e Compreensão cresceram até mais não.
O diagnóstico feito havia anos. A doença avançando impiedosa, levou-me lentamente a Mãe que eu nunca deixei, que nunca acreditei pudesse desaparecer, em chegando o seu dia.
Com paciência e calma, passeámos no corredor para um lado e para o outro, tentando manter uma conversa que de conexa pouco tinha. Frases curtas. Cuidado não tropeces - para lá. Devagar não te canses - para cá. Cuidado não tropeces, repetindo. Vamos ver uns quadros. Uma fotografia. De quem? Resposta correcta, quase sem fôlego. E aquela quem é? Lembras-te? Resposta correcta. Era linda, não era? Muito, responde quase sem fôlego.
Os olhos estranhos, que impressão! Mas nunca poderia admitir o que isso significava. Era a última noite. Na seguinte, quando cheguei perto dela, morrera. Não, Ela não podia fazer-me isso - Morrer! E agora compreender porquê?!
Toda a minha vida tinha sido orientada e acarinhada por ela, a sua dignidade, mesmo doente. Perdê-la? Nunca! 

Mas sim. Roubaram-me a Mãe!

Não! Sem Ela NÃO!

Silêncio

A brisa secava-me os olhos e o Sol entorpecia-me o andar. Quanto de mim ficara sob os torrões rolantes e sonoros, e mais e mais e mais. Por cima coroas de flores; mil-flores a adornar.

A brisa levou-lhe a alma naquela fotografia de olhar patusco. Foi parar a parte incerta, desapareceu.
A minha Mãe morrera.

Ali estava eu, perdida mas decidida a não a deixar sózinha. Grande silêncio à minha volta. Tudo se resumia a gestos pois os sons tinham sido também levados. Que falta de forças, mas dali não saía não fosse alguém puxar-me e arrastar-me ordenando que "Já basta!". Nem reagi, deixei-me ir.

Na véspera cheguei, depois de um telefonema aflito, e o enfermeiro abriu a porta da sala com ar pesaroso: "Não pudemos fazer nada. Já não respirava"
Na antevéspera passeava no corredor falando de mansinho por se sentir muito cansada. Despedi-me dando-lhe "muitos beijinhos" a seu pedido. Posso dar? "Sim, muitos."

Agora ali estava imóvel, de rosto bonito, como sempre. Acariciei-o, aveludado. Encostei-me a ele, e nada reagia. Triste, incrédula. Mãe porque me deixaste? A longa doença transformou-a, lentamente numa pessoa diferente, mas era a Mãe presente. A minha segurança espiritual.

Agora abandonára-a eu num local de abandonados, silenciosos entes queridos de alguém.

O último beijo

Chegou o momento! Será o último. Como é possível?
Ninguém reage. Apenas eu aceno com a cabeça. Aproximo-me e, com um enorme carinho, lhe dou o último beijo na testa. Um momento de abstracção, como se só eu e ele existíssemos. Sinto-lhe a pele fria. Porque não posso eu ressuscitá-la, aquecê-la para que retorne a mim?

Dois passos atrás, com a maior das dores alguma vez sentida. Aqueles passos significavam a permissão da clausura. Nunca mais o veria. Nunca mais. Era a última imagem.
As forças esvaíam-se. Fechei-me também como que num casulo isolado do mundo externo. Deixei de ver o que quer que fosse, de ouvir o que quer que fosse. Eu deixei a Terra e voei, como que numa tentativa de acompanhar o seu espírito a elevar-se e a sair da terra.

Mas não, não o acompanhei. Ele, sim acredito que tenha aceite a minha companhia, mas não o vi.
Não o vi, nunca mais.

Não há consôlo possível. Nunca mais!


The last kiss

The time has come! It will be the last. How is it possible?
Nobody reacts. Only I nod. I approach and with a great affection I give him the last kiss on the forehead. A moment of abstraction, as if only he and I existed. I feel her skin cold. Why can not I raise him up, warm him to return to me?

Two steps behind, with the greatest pain ever felt. Those steps meant permission for the cloister. I would never see him again. Never. It was the last image.
The forces are gone. I closed myself off as if in a cocoon isolated from the external world. I failed to see anything, to listen to anything. I left Earth and flew, as if in an attempt to accompany your spirit to rise and to leave the earth.

But no, I did not. He, yes, I believe he accepted my company, but I did not see him.
I did not see him, never

There is no possible conspiracy. Anymore!