Thursday, September 20, 2018

Nem tudo são coisas más
Um dia a minha psicóloga pediu-me que "meditasse" um pouco acerca do que penso que Construí e que Conquistei na minha vida. O mais fácil era fazer correr a "pena" para me organizar nos pensamentos. Assim fiz:
                                   
Construção e conquista


Construção articula fragmentos com um determinado sentido e, eventualmente, passa-se à reconstrução de novo sentido
O que temos vindo a construir através da análise do meu sentir, tem sido o tornar o inconsciente em consciente. Descobrir verdades na minha história que poderão ter estado ocultas até agora para, assim, poder "inventar" novas maneiras de as ver e constituir/construir a minha história futura.

"Na experiência analítica, tudo se deve dizer e nada fazer senão dizer. Na força criativa do dizer, o diálogo analítico empenha o sujeito em um trabalho que é mais do que um 'conhecimento de si', é uma verdadeira construção, ou (re)construção, por meio da qual o sujeito tenta 'tornar-se aquilo que é', ou melhor ainda, tenta fazer 'seu' o ser que ele é."
In A experiência psicanalítica: seus desafios e vicissitudes, hoje e amanhã por Zeferino Rocha (2008)
Na experiência as vivências recebem uma forma especial de estruturação interior.


1 - Ao ler as teorias de Freud sobre o complexo de édipo, já falámos que, devido à falta de comunicação com o Pai durante a infância e a adolescência, actualmente, se calhar, procuro apoio de natureza parental. Esta necessidade, parece-me, é dirigida às pessoas que me são próximas e queridas. Assim, procuro apoio no marido e nos filhos. Nem sempre essa busca é bem sucedida. Talvez daí venha a frustração e a tristeza que me acompanha.
A morte dos Pais levantou este sentimento. No meu inconsciente surgiu o sentimento de falta, de impotência (impossibilidade de atingir). Fugiu-me aquilo que acabara de conquistar. Estava a construir algo que me faltara na infância. A morte quebrou a minha construção. Fiquei impossibilitada de a continuar. E agora? Como aceitar este facto?
Talvez me esteja a centrar no complexo de édipo e não seja esta a verdadeira causa de toda a minha psicopatologia nem mesmo que seja complexo de édipo mas, talvez seja um bom começo de auto-análise. Será que todo o meu futuro se desenvolveu baseado nesta falta? Sempre admirei, venerei e respeitei o meu Pai. O certo é que sentia uma grande distância entre ele e mim. Actualmente estava a conseguir conquistá-lo, a conseguir que cedesse aos seus sentimentos e os expressasse perante mim. Que confiasse em mim a ponto de me deixar penetrar no seu sentir, a ponto de confidenciar comigo. Com isto sentia que ele me respeitava e me apoiava sentindo comigo os desgostos e alegrias da vida. Talvez a morte tenha sido demasiado precoce em relação ao desenvolver deste processo tardio.
Complexo de édipo implica ciúmes da Mãe, coisa que não me lembro de sentir. O que sentia sim, era falta de carinho do Pai. Falta de aproximação. A proximidade da Mãe não me chegava; era pouco. Eu queria muito a aproximação do Pai e finalmente consegui alguma.


Construí

2 - Construí uma ligação crescente entre mim e os meus Pais e irmã. Estes laços ajudaram os meus Pais a serem felizes enquanto responsáveis pela minha formação. Penso ter sido também importante na construção dos laços criados entre eles e a minha irmã e entre mim e ela. A semente foi lançada por eles, mas considero que tive um papel activo com a minha maneira de ser.

3 - Em relação a mim tenho feito uma construção contínua da minha identidade, o meu ser, com base nos valores que me ensinaram. Fui crítica e, por isso, criei problemas por vezes. Principalmente na adolescência. Nessa altura criei mau ambiente na família, tenho noção disso. Mas penso que consegui transmitir que a minha identidade tem que ser respeitada. Aqui penso que foi uma conquista que fiz para poder construir-me. Conquistei o respeito de quem me rodeava, coisa que, penso, se manteve. Ouvia, por vezes, comentários negativos sobre a minha maneira de ser reservada, pouco faladora. Por outro lado percebia que a minha sensibilidade era apreciada sendo um factor positivo. Em relação aos factores negativos não sabia resolvê-los ficando ofendida talvez pensando que até tinham razão. No entanto eu era assim e achava que não deveriam existir padrões para ter sucesso. Lembro-me de a Mãe contar que eu em casa não falava mas que veio a saber que, na escola, era das que mais falavam. Não hesitava quando havia perguntas. Nunca entendi porquê. 

Criei as minhas próprias experiências para reflectir e atingir os meus objectivos como pessoa. Saí de casa pois não quiz aceitar aquilo que considerava autoritarismo e desrespeito.
Segui o caminho que tracei em termos intelectuais e sociais. Fiz uma escolha em relação aos estudos e profissão, tendo tido a aprovação dos Pais.
Aceitei um casamento (não sei se se pode considerar conquista pois eu senti-me conquistada e não conquistadora), que falhou. Falhou desde o início. Fui tolerando e lutando mas não consegui o que idealizava e desisti.

Continuo lutando e tentando construir o meu eu em contínuo, tentando interpretar as minhas reacções perante as minhas experiências e tentando compreender-me a mim própria.

Será que construí:?
4 - O desenvolvimento das crianças do ponto de vista emocional, de valores e de inserção na sociedade. Através do desenvolvimento da imaginação, de transmissão de amor e de ensinamentos aparentemente menos importantes mas bons para se desenvolverem emocionalmente e socialmente (como, por exemplo, observar pormenores na natureza e nas pessoas).

Empenhei-me sempre, principalmente, em transmitir-lhes o amor que sentia por eles e esperando que assim aprendessem a amar o próximo. Empenhei-me em ensinar-lhes a interpretar e absorver regras sociais de forma a que sózinhos pudessem traçar os seus caminhos da maneira mais saudável possível, por exemplo, fazerem ligações sociais e de amizade com pessoas socialmente saudáveis (nada de drogas ou distúrbios). Ensinei-os a serem respeitadores e sempre tive provas de que isso surtiu efeito, por exemplo, através de informações das escolas. Todos eles hoje em dia são respeitadores do outro enquanto pessoa ou ser vivo. Ajudei-os a desenvolverem a sua sensibilidade, coisa que revejo muito nos 3. Todas as noites lhes lia uma ou mais histórias sendo que a mais lida era a Fada Oriana no tempo do Francisco, os Óculos do coelho Cenourinha com a Joana. O Miguel foi o mais descurado talvez por ser complicado e chorão.

5 - Segundo opinião do João, não os eduquei de forma a criarem hábitos e interesses de maneira a estabilizarem e estudarem. O Francisco, por exemplo, mudou de área de estudo. Passou de ciências para artes, deixou disciplinas por fazer e não estudou o suficiente para terminar o 12o ano. Por outro lado não luta para conseguir um trabalho que lhe dê independência financeira suficiente. Acha que fui eu que permiti a mudança e a ida para Aveiro para acabar o 12o (que não acabou)


Conquistas
6 - Conquistei uma vida melhor do ponto de vista sentimental. Libertei-me de um casamento feito de desentendimentos.

7 - Penso que conquistei o amor e respeito dos meus filhotes.

8 - Conquistei o meu Pai a ponto de confidenciar comigo

9 - Não conquistei uma qualidade que sempre gostaria de ter tido que é facilidade de comunicação. Não tenho nem nunca tive. Desde pequena que luto por isso. Não gostava de falar. Só de observar. Não queria atender o telefone. Aqui os meus Pais erraram, penso, pois com o que diziam apenas conseguiam que eu me fechasse ainda mais. A Mãe era muito comunicativa e não entendia que eu era como o Pai. Apesar de tudo parece-me que ele era mais comunicativo do que eu.

10 - Não consegui nunca ser competitiva.
Considero um defeito que não consigo vencer, que é viver com o coração.
Sou demasiado tolerante o que me é desfavorável na sociedade em que vivemos e no meio profissional.


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